Que estranho é não saber se comunicar. Descobrir que não se sabe comunicar é como tentar desenhar uma maçã e o resultado ser uma laranja. Não era aquilo que a gente queria, e durante o processo você só pensava em maçãs, em como elas podem ser vermelhas ou verdes, nas suas sementes no centro daquela quase-esfera, em como é fácil cortá-la.
O que os outros vêem acontecer, entretanto, é algo um pouco diferente. Eles sabem que aquilo é uma fruta e até desconfiam que pode ser uma maçã nos seus primeiros rascunhos. Depois das primeiras pinceladas eles notam que você misturou o vermelho com o verde – justamente enquanto você pensava nas cores que uma maçã pode ter – e sua tela ficou com uma cor diferente, quase bronze. Aquela forma arredondada da maçã saiu uma circunferência quase perfeita – fruto, talvez, do seu perfeccionismo exacerbado com as coisas que faz, sem saber ou levar em conta que a realidade exige a existência de falhas na circunferência para que ela se torne o que é (uma maçã), assumindo, assim, sua identidade, e não acabe se perdendo no caminho e se parecendo com outra coisa -, mas tão ‘quase’, que somando-se ao vermelho e verde aquilo mais parecia uma laranja.
E isso resulta nas reações mais adversas possíveis. Seu mecenas, por não entender ou não saber que você queria desenhar a maçã mais perfeita de toda a história da natureza morta, lhe nega meses de regalias e lhe afaga com suas torturas psicológicas favoritas. Sua esposa, que sonhava com a maçã que você tanto falava e a via nitidamente enquanto dormia, se esvai em lágrimas quando vê sua laranja-maçã, pensando que você a traíra e agora pensava em outras.
E você recorre a Deus, onipresente, onipotente e onisciente, talvez o único que conhece sua intenção inicial, sua real intenção, aquele que te conhece como ninguém. Mas Deus não se comunica com você. E se Ele se comunica, você não consegue ouvi-Lo. Porque talvez o que Ele queira lhe dizer você não é capaz de entender. Quem sabe Ele te fala em maçãs e laranjas, mas você só pensa nas sementes.
E então você se vê. E você está sozinho. Sozinho e mudo.
20/02/2011
Sobre Laranjas e Maçãs
10/10/2010
Economy reality
It’s a story about us, people, being persuaded to spend money we don’t have on things we don’t need to create impressions that won’t last on people we don’t care about
- Tim Jackson, aqui: http://bit.ly/9EZazi
07/10/2010
despedida
- Nem sei ao certo se ela sempre esteve aqui. Algumas vezes acreditava que sim, outras parecia sonho. Aquilo era eu?
Aos poucos ela foi indo embora, disso tenho certeza. Parei de sentí-la por perto.
Até que eu percebi, numa tarde de quinta-feira.
Ela foi embora sem nem se despedir.
22/08/2010
mad
Balé.
Plié?
Não, obrigado. Já estou embriagado.
Tantos pliés ela me mostrou.
Minha Mad. Ela é louca?
O que ela faz aqui? De onde ela vem? Pra onde ela vai?
Com o coração partido ela me fala. Muitas falas, muitas vozes.
Quem é ela? Mesmo? É de verdade?
Ela quer saber se ele vem. O que eu posso dizer? A vida continua?
Um ano não é um dia? Um dia pode ser uma vida?
Qual a intensidade disso? Qual a intenção disso tudo?
Tem intenção nisso? Nah, tenho mais o que beber.
Jazz, poucas horas de sono.
Cabeça vira, os olhos viram, eu oro e peço. Pelo quê, mesmo? Já esqueci.
Ela vem lembrar?
Me faz lembrar..
———–
Li.: Na espera de uma fala, uma reciprocidade no olhar,
o perceber da minha vista escondida em meio a multidão, eu o via.
O que estivesse ao meu levantar dos braços e pontinha dos
pés, fazia. Posto que os minutos passassem, nada mudasse,
de raiva, sofria. E assim eu vivia minutos mais torturantes que uma vida!
Aquela baforada.
Li.: Melhor seria se eu contivesse o desprazer que tive em
apenas alguns segundos,
quando, com um pingo na cabeça, parecia não sentir nada.
E assim foi, ainda é. O que me faz
acomodar e tentar, não jamais, parar de tentar mudar.
INACEITÁVEL.
01/07/2010
na noite
Noite muito louca. Pessoas se divertindo loucamente.
Fui sozinho. Fiquei sozinho e voltei sozinho.
Muitos conhecidos ao meu lado. Nada a compartilhar.
Espremido entre eles, eu ouvia. Me emocionava. Cantava.
Não importava mais.
Não queria mais o reconhecimento deles. Queria minha diversão de volta.
Escondi-me atrás de uma lata de cerveja e pulei na multidão. Putaria.
Alegria desvairada, desmedida. Fugaz.
Interrompi a baderna para ir ao banheiro. Silêncio.
Aquele barulhinho na água e lá vamos nós de novo para a solidão. Balança pra cá, balança pra lá e, tchum!
Nada a compartilhar novamente. Muitos rostos, muitos sorrisos, muitos, muitos. E nada.
Nem um minuto de atenção senão aquele. Aquela conversa rápida, interessantemente desinteressada, como esse adjetivo maquiado que acabou de passar por aqui.
Meio quilograma de compartilhamento. Luz no fim do túnel?
Sei lá.
Depois, minha companhia. Ah, doce companhia. Sem a solidão espremida dos outros, aquele conforto. Calmaria. Tranquilidade.
Aquilo era mais divertido que cinema, hein?!
Muito mais.
Do café à cerveja foram breves palavras, alguns sorrisos e um pouco de gentileza.
Três estranhos. Muito a compartilhar.
22/06/2010
posterga!
Gosto de escrever no papel, tem mais emoção.
Tô com uns textos ali no caderno, quem sabe depois eu passo pra cá.
13/06/2010
o argueiro e a trave
“Como, com efeito, um homem bastante vão para crer na importância de sua personalidade e na supremacia de suas qualidades, pode ter, ao mesmo tempo, bastante abnegação para fazer ressaltar, em outro, o bem que poderia eclipsá-lo, em lugar do mal que poderia realçá-lo? Se o orgulho é o pai de muitos vícios, é também a negação de muitas virtudes; encontramo-lo no fundo e como móvel de quase todas as ações.”
01/06/2010
quero
mais criatividade, mais abstração;
menos tecnicismo, menos apego à lógica;
mais emoção e menos razão;
07/05/2010
HSM
“Para o meu avô Hélio Silveira da Motta, na vida tudo era possível de se conseguir; bastava apenas liquidar todos os obstáculos, um de cada vez ou, às vezes, todos de uma vez só. Ele sabia que por trás de qualquer grande idéia havia uma montanha enorme de desafios, e nunca hesitou em enfrentar esses desafios”.
- Paulo Silveira da Motta, sobre seu avô, Hélio Silveira da Motta. Por Celso Japiassu
04/05/2010
Leve
“Não me leve a mal
Me leve à toa pela última vez
A um quiosque, ao planetário
Ao cais do porto, ao paço
O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo
Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será um caminho bom
Mas não me leve
Não me leve a mal
Me leve apenas para andar por aí
Na lagoa, no cemitério
Na areia, no mormaço
O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo
Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense como eu vim de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será tudo de bom
Mas não me leve
O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo”
- Leve, Chico Buarque